Não existe uma cirurgia única para artrose de joelho. A osteotomia corrige o alinhamento e transfere a carga para o lado preservado; a prótese parcial substitui só o compartimento comprometido; a prótese total substitui as superfícies de toda a articulação. A indicação vem da dor que deixou de responder ao tratamento conservador somada à perda de função, e não do que aparece no raio-X.
Quando a palavra cirurgia aparece na conversa sobre artrose, a imagem que costuma vir junto é única: a prótese. Ela é uma das opções, não a única, e está longe de ser a primeira.
Há procedimentos com propósitos bem diferentes, indicados para perfis diferentes, com recuperações diferentes. Entender essa distinção muda a qualidade da conversa na consulta — e evita que a decisão se reduza a operar ou não operar.
A cirurgia não é o fim natural de toda artrose
Vale desfazer isso primeiro, porque organiza todo o resto. Receber o diagnóstico de artrose não coloca ninguém numa fila. Tempo de diagnóstico não indica cirurgia, e estágio radiográfico avançado, isoladamente, também não.
O que coloca a cirurgia em pauta é a combinação de duas coisas: dor que deixou de responder às medidas anteriores bem conduzidas e perda de função que afeta o que a pessoa precisa fazer. Quando apenas uma delas está presente, quase sempre há caminho antes.
Boa parte das pessoas com artrose atravessa décadas sem chegar a essa conversa, sustentada pela sequência de recursos que antecede a sala de cirurgia.
Osteotomia: mudar a carga de lugar
O joelho tem compartimentos, e é comum que a artrose comprometa um deles muito mais que os outros — em geral o lado interno, quando o alinhamento das pernas concentra carga ali.
A osteotomia trabalha sobre esse desequilíbrio. Em vez de substituir a articulação, ela corrige o eixo do membro, transferindo parte da carga do compartimento desgastado para o que ainda está preservado. A articulação permanece sendo a própria.
O perfil típico é o de uma pessoa mais jovem, ativa, com desgaste limitado a um compartimento e o alinhamento dos membros participando do quadro. É um procedimento que preserva a articulação própria e, por isso, costuma ser considerado antes das alternativas que a substituem.
Prótese parcial e prótese total
Quando a substituição se impõe, a extensão dela varia.
Na artroplastia parcial, também chamada unicompartimental, apenas o compartimento comprometido é substituído. Os ligamentos próprios e o restante da articulação permanecem. Por envolver menos estrutura, tende a preservar melhor a sensação natural do joelho e a exigir menos do processo de recuperação. Em contrapartida, depende de que os outros compartimentos estejam realmente preservados e de ligamentos íntegros — condições que a avaliação precisa confirmar, não presumir.
Na artroplastia total, as superfícies articulares do fêmur e da tíbia são substituídas, com ou sem a patela, conforme o caso. É a indicação quando o desgaste envolve mais de um compartimento ou quando há alterações que inviabilizam a alternativa parcial. É também o procedimento com mais tempo de acompanhamento clínico acumulado na ortopedia.
A escolha entre as três opções não é uma questão de preferência nem de técnica disponível: ela decorre do padrão de desgaste, do alinhamento, da integridade dos ligamentos, da idade, do nível de atividade e do que aquela pessoa precisa recuperar.
Só depois dessa definição entra a discussão sobre como executar o procedimento, onde aparecem recursos como a navegação e a assistência robótica. Vale conhecê-los pelo que são — instrumentos de execução de um plano — e não como critério de escolha anterior à indicação.
O que não é indicação
Esta seção é tão importante quanto as anteriores, e raramente aparece.
Estágio radiográfico avançado sem limitação correspondente não indica cirurgia. Existem joelhos com desgaste acentuado na imagem em pessoas que mantêm a rotina com pouco incômodo, e operar nesse cenário troca uma situação estável por um pós-operatório. Vale lembrar que a radiografia enxerga o osso e o espaço entre os ossos, e não mede inflamação, força muscular nem o que aquela pessoa consegue fazer num dia comum.
Dor sem que o tratamento conservador tenha sido de fato conduzido também não indica. E aqui cabe precisão: conduzido significa trabalho de força com progressão, por tempo suficiente, com acompanhamento — não duas semanas de fisioterapia interrompidas por falta de resultado imediato.
Há ainda um ponto específico que gera muita expectativa equivocada: a artroscopia, usada para limpeza da articulação, não é tratamento para a artrose em si. Ela tem papel bem definido em outros problemas do joelho, e pode ser indicada quando há uma lesão associada que justifique, mas não corrige o desgaste nem altera a evolução do quadro. Procurar artroscopia esperando resolver a artrose leva à frustração previsível.
O momento da decisão
Existe uma janela, e ela é mais estreita do que parece.
Operar antes da hora consome anos de articulação própria que ainda funcionavam, e nenhuma prótese dura para sempre — quanto mais cedo a primeira, maior a chance de uma revisão ao longo da vida, procedimento tecnicamente mais complexo que o original.
Operar muito depois traz outro custo, menos visível. Anos convivendo com dor produzem perda de força, perda de amplitude de movimento e alterações no padrão de caminhada que não desaparecem com a cirurgia. Quem chega ao procedimento em pior condição funcional tende a enfrentar uma reabilitação mais difícil, porque a cirurgia troca a superfície articular e não devolve a musculatura perdida.
Por isso reconhecer que o tratamento conservador deixou de sustentar é parte do acompanhamento, e não um fracasso a ser adiado.
O que esperar da recuperação
A recuperação é um processo de meses e depende de trabalho ativo. A cirurgia resolve o problema mecânico; a função quem recupera é a reabilitação.
O tempo varia conforme o procedimento, a idade, a condição muscular prévia e as demais condições de saúde — e é justamente por variar tanto que prazos definidos não devem ser prometidos a ninguém antes da avaliação individual. O que se pode dizer com segurança é que chegar ao procedimento com musculatura preservada melhora as condições de partida, e que esse preparo começa bem antes da data da cirurgia.
Esse preparo tem nome e vem sendo cada vez mais valorizado: é o trabalho feito nas semanas que antecedem o procedimento, voltado a chegar com mais força na coxa e melhor amplitude de movimento. A lógica é simples de entender — a cirurgia substitui a superfície articular, não a musculatura. Quem entra com o quadríceps mais forte tende a retomar antes o controle do joelho depois, e o inverso também vale.
Outro ponto que merece expectativa ajustada é a diferença entre dor e função. O alívio da dor que vinha da articulação desgastada costuma ser percebido bem antes da recuperação completa do movimento e da força. Encontrar o joelho ainda rígido e fraco algumas semanas depois, com a dor antiga já resolvida, é parte esperada do processo — e não sinal de que algo deu errado. Confundir as duas coisas gera ansiedade desnecessária numa fase em que a adesão à reabilitação é justamente o que mais importa.
Se o seu joelho já chegou ao ponto em que a dor aparece em repouso, atrapalha o sono e limita o que você precisa fazer, a conversa sobre cirurgia é legítima. Ela começa por uma avaliação para cirurgia de joelho que examine o padrão de desgaste, o alinhamento, a condição dos ligamentos e a sua função atual — e que coloque na mesa, com clareza, o que cada caminho resolve e o que ele exige de você depois.
Decidir com esse conjunto é diferente de decidir com um laudo. A pergunta certa não é se o seu raio-X justifica operar, e sim o que você precisa voltar a fazer, o que já foi tentado para chegar lá e qual procedimento corresponde ao padrão de desgaste do seu joelho. É uma conversa que vale ter sem pressa, e de preferência antes que a limitação decida por você.