A tendinite da pata de ganso é a sobrecarga da inserção comum de três tendões na face interna da tíbia, alguns centímetros abaixo da linha da articulação. A altura do ponto doloroso é o que a distingue: acima da linha sugere ligamento colateral, sobre a linha sugere menisco medial, e abaixo dela sugere pata de ganso. O tratamento é conservador, com ajuste de carga e fortalecimento.
Comece pelo que mais importa neste texto: dor na face interna do joelho tem pelo menos três origens frequentes, e a pata de ganso é a menos lembrada das três.
É comum encontrar pessoas que passaram meses tratando um menisco que não era o problema, ou convivendo com uma dor atribuída à artrose que na verdade vinha de um ponto alguns centímetros abaixo. A distinção é simples de fazer no exame e muda completamente o tratamento.
Onde fica a pata de ganso
O nome vem do desenho. Três tendões — do sartório, do grácil e do semitendíneo — descem pela face interna da coxa e se inserem juntos na tíbia, num arranjo que lembra a membrana de uma pata de ave.
Essa inserção fica na face interna da tíbia, aproximadamente quatro a cinco centímetros abaixo da linha da articulação. Entre os tendões e o osso existe uma bursa, uma pequena bolsa que reduz o atrito — daí o quadro também aparecer nomeado como bursite anserina, embora nem sempre a bursa seja a estrutura principal envolvida.
Os três músculos participam da flexão do joelho e do controle da rotação interna. É por isso que a sobrecarga costuma aparecer em quem repete muito esses movimentos, ou em quem tem uma mecânica que os exige demais.
A altura do ponto doloroso separa tudo
Esta é a informação mais útil do texto, e ela é puramente anatômica.
- Acima da linha da articulação, no trajeto que sobe pela face interna: ligamento colateral medial. Costuma ter trauma na história.
- Sobre a linha da articulação, exatamente no espaço entre fêmur e tíbia: lesão de menisco medial. Costuma vir com dor ao agachar, girar e, às vezes, travamento.
- Abaixo da linha, na face interna da tíbia: pata de ganso. Sem trauma na história, sem travamento.
Some-se a isso a artrose do compartimento interno, que também dói na face medial mas costuma incomodar sobre a linha articular e vem com rigidez matinal curta e limitação progressiva.
Na consulta, a separação se faz por palpação ponto a ponto, comparando com o outro joelho, e por manobras específicas de menisco e de estabilidade. Leva poucos minutos — mas exige que alguém pense nas quatro possibilidades, e não apenas na mais famosa.
Há ainda um detalhe que reforça a suspeita: a dor da pata de ganso costuma piorar ao subir e descer escadas, ao levantar do carro e ao dormir de lado com um joelho sobre o outro. Essa última queixa é bastante característica, porque a pressão de um joelho sobre o outro cai justamente sobre a inserção dolorida.
Quem costuma ter
É um quadro de sobrecarga repetitiva, e alguns perfis se repetem.
Corredores, sobretudo os que aumentaram volume ou mudaram de terreno recentemente. Pessoas acima do peso, pela carga adicional sobre a região interna do joelho. Quem tem artrose do compartimento medial, em que a alteração de eixo aumenta a exigência sobre os tendões. Pessoas com alterações de mecânica na pisada ou fraqueza da musculatura do quadril, que deixam o joelho desabar para dentro a cada apoio.
Nem sempre há uma causa única, e essa é a razão de o quadro voltar quando se trata só o sintoma. Aplicar gelo e tomar medicação resolve a semana; se a mecânica que produziu a sobrecarga continuar a mesma, a dor volta.
Há ainda um perfil que foge do esporte e vale mencionar, porque costuma demorar a ser reconhecido: pessoas que passaram a caminhar bem mais que o habitual num período curto, seja por mudança de rotina, viagem ou orientação para perder peso. A intenção é boa e o aumento de carga é real — e a inserção dos tendões, que não teve tempo de se adaptar, cobra a diferença.
Por que o quadro insiste em voltar
É a queixa mais comum de quem já tratou esse problema antes: melhorou, voltou a correr, e depois de algumas semanas a dor reapareceu no mesmo lugar.
O motivo quase sempre é que o tratamento tratou a dor e não a sobrecarga. A inserção doeu porque recebeu mais carga do que suportava; se nada mudou na quantidade de carga ou na capacidade do tecido, a conta volta a fechar do mesmo jeito.
Há um segundo motivo, mais sutil, ligado ao tempo de retorno. O alívio costuma chegar bem antes da recuperação da capacidade, e a volta ao volume anterior acontece nessa janela — com o tendão ainda sem condição de sustentá-lo. É o mesmo padrão de outras lesões por sobrecarga, e a solução também é a mesma: progressão gradual, com critério, em vez de retomada do ponto onde parou.
O tratamento
É conservador na grande maioria dos casos, e a resposta costuma ser boa quando o diagnóstico está certo.
Começa por reduzir temporariamente o que provoca a dor — sem parar tudo, porque a inatividade traz os próprios problemas. Entra o controle da dor na fase inicial, e logo em seguida o trabalho de fortalecimento, com atenção especial à musculatura do quadril, que é quem controla a posição do joelho no apoio.
Em paralelo, corrige-se o que levou até ali: a progressão de treino que subiu rápido demais, o terreno, a técnica de corrida, a pisada quando ela participa do problema. Dormir com um travesseiro entre os joelhos ajuda quem tem a queixa noturna, e é um ajuste que custa nada e costuma dar resultado já na primeira noite — vale testar antes de concluir que a dor noturna é inevitável.
A infiltração local existe como recurso em casos selecionados e resistentes, e a decisão é individual. Ela não substitui a correção da mecânica: usada isoladamente, tende a comprar tempo e devolver o problema.
Sobre o prazo, vale uma expectativa realista. Quadros recentes, reconhecidos nas primeiras semanas e com a carga ajustada logo, costumam responder em cerca de um mês. Quadros que já duram meses respondem mais devagar, e nesses a melhora costuma vir em degraus: períodos de alívio seguidos de pequenas recaídas quando a carga sobe, até que a capacidade acompanhe. Essas recaídas fazem parte do processo e não significam que o tratamento falhou — significam que a progressão foi um pouco rápida e precisa recuar um passo.
Um sinal, porém, pede reavaliação em vez de paciência: dor que muda de caráter, passa a incomodar em repouso e à noite, ou vem acompanhada de inchaço da articulação. Isso não é o padrão da pata de ganso, e sugere que a origem da dor é outra ou que existe mais de um quadro ao mesmo tempo no mesmo joelho.
Se você tem dor na parte interna do joelho há semanas, já ouviu que pode ser menisco e o tratamento não está respondendo, vale conferir a altura exata do ponto que dói. Uma avaliação do joelho esportivo palpa as quatro regiões comparando os dois lados e testa as manobras que confirmam ou descartam cada hipótese.
Vale também levar a informação que só você tem: onde exatamente o dedo aponta quando a dor aparece, e em que situações ela piora. Nesse quadro específico, essa descrição vale mais que o laudo de qualquer exame — até porque a ressonância de um joelho com quarenta anos costuma mostrar alterações de menisco que não têm nada a ver com o que está doendo.